sábado, 7 de novembro de 2015

Mulher nenhuma merece apanhar de homem

"Mulher nenhuma merece apanhar de homem". Foi esta a frase que eu disse a pouco para minha tia que, há alguns dias, deixou o marido que a espancou (mais uma vez).

Conversando com ela agora a pouco, ela disse que há muito tempo ele não vinha com comportamentos agressivos. E, no entendimento dela, isso é mais um fato isolado e ele jamais faria "mal" a ela. Ela disse que ele não teria coragem de matá-la.

Precisei voltar em um episódio que aconteceu quando eu ainda era criança. Estávamos em uma festa na fazenda da família do marido dela. Ele, completamente bêbado, ameaçava de matá-la, ali mesmo, com vários espectadores. Ela pegou uma faca e apontava para ele, para que pegasse e a matasse. Ela gritava.  E, isso, foi só um episódio da vida deles.

Outra vez, também há vários anos, porém sem tantos espectadores (pelo que sei da história, somente as 3 filhas deles), ele pegou uma arma e pretendia matá-la, na frente das filhas, em casa. O tiro não a acertou.

Todos esses casos foram ocultados para conhecimento de meus avós. Nada disso foi denunciado. Nenhuma providência tomada. Seguindo a triste tradição da família tradicional mineira, "em briga de homem e mulher ninguém mete a colher".

No caso mais recente, há aproximadamente dois meses, eles, retornando da fazenda para a casa, começaram a discutir no carro. Em determinado momento, ele pegou a cabeça dela, que dirigia, e a golpeou contra o volante. Obviamente, ela escondeu tudo isso dos meus avós, que ficaram sabendo agora a pouco por um tio meu (filho deles).

O meu tio comentou que "ele deveria mesmo é morrer" depois que minha avó contou que ele, agora sozinho em sua fazenda, teve algum problema de saúde esta semana e foi hospitalizado numa cidade pequena. A minha avó, querendo saber o porquê daquele "ataque" do meu tio, ficou sabendo por este que ela apanhou do marido. Obviamente, minha avó ficou assustada e preocupada, mas pouca ação pode ter. Inclusive, a pouco, quando esta minha tia chegou, nada foi comentado.

Após isso, quando todos estavam a mesa (exceto minha avó), minha tia começou a comentar sobre a condição de saúde dele e que ela está preocupada com ele e que espera apenas um perdão dele para voltar. Eu, bocudo como sempre, disse que "mulher nenhuma merece apanhar de homem". Ela, minha mãe e minhas outras tias me olharam com olhar de reprovação por dizer isso em frente do meu avô, que disse eu estava "falando besteira".

Conversei com ela separadamente e ela disse que não consegue viver sem ele. Que se ele morrer, ela morre junto. Que ela não aguenta mais essa situação.

Duas de suas filhas estão com pavor dele. A outra, o defende, pois "ele está sozinho" e que a minha tia deveria estar com ele neste momento.

Na verdade, é o que ela queria fazer.

Poucos dias depois do acontecido no carro, as filhas foram até a fazenda falar com o pai. Ele disse que não havia acontecido nada daquilo e que foi invenção da mãe delas. A mais nova disse a ele que ela sempre teve a imagem dele como um monstro e não como um pai, pelo tudo que já passaram. Ele, virando a ela, disse que ela não deveria nem ter nascido.

Voltei com a minha tia também neste assunto, mas ela acredita que ele sempre foi um bom pai, que nunca faltou nada para elas.

Tentei convencê-la em aceitar que necessita de ajuda psicológica, mas ela acredita que está bem. Acredito que o primeiro passo para o sucesso de um acompanhamento psicológico é que o paciente aceite que ele precisa de ajuda. Infelizmente não é o seu caso. E muitos, infelizmente, são assim.

O que passa com tudo isso é que, mais um pouquinho, me tira a vontade de ser feliz. Parece besteira, mas coisas que acontecem, estão me afetando de um modo forte. Me parece que não tem motivos pra lutar, pois parece que tudo vai para o pior caminho possível.

Não preciso nem falar da atual situação política brasileira, com uma câmara pré-medieval.

Além disso, hoje, especialmente, me senti muito afetado por tudo que está acontecendo na cidade de Mariana e em outras cidades pelas quais o maldito rejeito daquelas barragens vão passar. Milhares de vidas que sofreram e sofrerão prejuízos pessoais e materiais que são incomensuráveis. Eu não consigo entender os frios números quando se diz que o número de mortos foi menor que o esperado. Pelo amor de Shiva... Se uma pessoa morreu, já é um desastre! Essa pessoa não era pra ter morrido! Morreu por causa de negligência e ganância. Vivemos para ganhar dinheiro para poder pagar a vida que temos! Qual é a razão disso? Gastar toda nossas vidas tentando ter mais sempre. Perdendo nossas vidas nos prostituindo para o dinheiro que gastaremos nos nos prostituirmos pelo dinheiro.

Eu estou escrevendo porque não aguento mais guardar tanta coisa em mim e também não sei como não sofrer com isso. Não sei mais se estou vivendo da forma certa. E não sei se saberei como viver da forma certa. Eu não sei como recuperar a felicidade que eu sentia, pois atualmente eu me sinto vazio, seco, sem vida. Não gosto de mim assim, mas não sei como mudar. O mundo não me está dando forças para viver. Ele está me matando vivo. E isso é triste.